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E era a hora do regresso

Desafios da Escrita
30 de jun. de 2025
2 min de leitura


Comecei a namorar muito cedo. Apaixonei-me por ele à simples primeira vista. Era mais alto

do que eu, tinha uns cabelos escuros e lisos, um sorriso de dentes perfeitos, um pouco maroto

que era o encanto de qualquer rapariga.

Nunca me considerei alguém com uma vida amorosa ativa, quero dizer, tive aqueles

namoros banais de criança e gostei de 2 ou 3 rapazes, mas nunca foi nada por aí além.

Resumindo, porque a nossa história foi muito parecida à de muitos adolescentes, tínhamos

amigos em comum, rondávamos idades entre dezassete e vinte e um anos, tendo eu dezassete

e ele dezanove. Evidentemente, tornámo-nos mais próximos e ele começou a ser mais

amoroso comigo. Conclusão, começámos a namorar.

No início, ele era o meu rapaz de sonho, era atencioso, tínhamos encontros frequentes,

íamos comer gelados e ao cinema e dei- lhe a conhecer a minha família.

À medida que o tempo passou, começou a evidenciar sinais de ciúmes e até alguma

violência, que eu achava muito banal porque foi o meu primeiro amor.

Havia uma série de regras que tinha que seguir, caso contrário, havia sempre discussões

muito fortes as quais eu evitava ao máximo. Amava-o demasiado para não as seguir. Entre elas

estavam: não poderia sair de casa sem avisar; não podia ter amizade com nenhuma pessoa do

género masculino e as pessoas do género feminino tinham que ser aprovadas por ele; não

podia usar roupa reveladora; não podia usar maquilhagem.

Acho que já compreenderam aonde quero chegar. Na altura, trabalhava numa empresa e

um colega do género masculino, com o qual me relacionava muito bem, ofereceu-se para irmos

lanchar a uma padaria ao virar da esquina. Eu, inocentemente, aceitei. Quero só mencionar

que aceitei maioritariamente por educação e na empresa onde trabalhava era obrigatório usar

saia um pouco acima do joelho, camisa social e blazzer.

Eu, cumprindo as regras do meu amado, enviei-lhe uma mensagem a avisar o que iria fazer

quando saísse do trabalho. Porém, cometi o “erro” de dizer que ia com a minha melhor amiga,

pois sabia que, caso contrário, ele não me deixaria ir. Ele acedeu.

Assim foi. Fui com o rapaz, lembro-me de me sentir bem nesse momento, ele era muito

engraçado. Chegámos ao local e passados exatos nove minutos, vejo o meu namorado a

entrar na padaria. O meu corpo gelou. Eu sabia o que iria acontecer. Ele avisou-me.

Fiquei tão congelada, tão paralisada, tão em choque que a primeira coisa que me lembro foi de

ele me puxar pelo braço até ao carro e a última foi o pontapé que me deu na cabeça. Desmaiei.

Depois só me lembro de acordar no hospital e a minha mãe do meu lado. Ela questionava-se

o que me teria acontecido. Ele nunca mostrou estes sinais em público. Eu, com uma lágrima

escorrendo do olho, disse-lhe “Está na hora do meu regresso, mãe”.

 
 
 

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