Foi Quase…
Desafios da Escrita
2 de out.
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Foi quase amor. Ou talvez tenha sido amor, mas daqueles que chegam na altura errada e partem antes de ganhar raízes. Conhecemo-nos sem intenção, como quem tropeça no destino num dia vulgar, e, de repente, tudo parecia diferente. Havia uma leveza nos nossos gestos, uma curiosidade silenciosa, um brilho nos olhos que não era preciso explicações. Foi quase o início de algo.
Falávamos durante horas, sobre tudo e sobre nada, como se o tempo tivesse deixado de contar. Descobrimos gostos em comum, sonhos parecidos e medos que nunca tínhamos confessado a ninguém. Sentia que ali havia verdade, uma ligação rara, daquelas que não se explicam, sentem-se. E, no entanto, havia sempre qualquer coisa por dizer, um passo por dar que ficava suspenso no ar. Foi quase o momento certo. Quase a coragem suficiente. Quase a escolha certa. Mas a vida, com a sua pressa e as suas exigências, decidiu por nós. Vieram as dúvidas, os silêncios mais longos, as mensagens que ficaram por responder. Não houve discussão dramática nem palavras duras, houve apenas um afastamento lento, quase impercetível, como a maré que recua sem que se note. Hoje penso em tudo o que poderia ter acontecido. Nos planos que construímos na brincadeira, nas promessas que nunca chegaram a ser feitas. Não guardo raiva, apenas uma saudade serena, daquelas que pesa no peito, mas ensina. Aprendi que nem tudo o que é verdadeiro está destinado a permanecer.
Foi quase. Quase nós. Quase uma história para a vida inteira. E talvez o que mais doa não seja o fim, mas a certeza que estivemos tão perto de algo extraordinário e mesmo assim deixámos escapar.


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